*Por Jonas Tadeu Nunes
Urubici, 09 de janeiro de 1961. Deixamos nossa terra às quatro da madruga. Éramos doze, crianças e adolescentes, entre os 10 e os 18 anos. Madrugada fria, de vento cortante, como sempre, naquelas paragens.
Meu pai, enérgico e soberbo liderava a expedição. Contratara uma camioneta F100, Ford, com cabina e carroçaria metálicas, minúscula para tanta gente, para-lamas azuis, o fundo amarelo.
Quatro na frente, na cabina, oito na carroçaria, junto com as malas; cada um segurava a sua; poucas roupas e pertences mínimos, num saco, a coberta de penas; a minha era verde, quadriculada, com pequenos quadrinhos brancos. Todos excitados e felizes. Em nossas cabeças um único pensamento: ver novas terras. O entusiasmo infantil se misturava à angústia de sair de casa. Eu tinha, então, dez anos. Em meio ao tumulto e ao vozerio, observava minha mãe, atarefada na preparação do lanche para a viagem. Seu olhar me procurava, e na rapidez do raio com o meu cruzava, soslaio, furtivo, medroso. Não sorria, não acariciava, não chorava. Acheguei-me a ela, querendo um abraço. – Vai, rapaz! Empurrou-me para o carro.
Embarcamos, entre gritos, risos e lágrimas furtivas. Meu pai, parado na calçada, dava as últimas recomendações. Mamãe enxugava as mãos nervosas no avental, enrolando-o e desenrolando-o sem parar. Saímos, pela noite escura.
O motor da camioneta resfolegou cansado, Esquina a baixo. Deslizamos no silêncio da madrugada fria, olhando cada casa fechada e silenciosa, cada ruela, cada pinheiro. Aos poucos fomos saindo do povoado e ganhando a estrada. O frio encarangava os dedos, e de nossas bocas saíam baforadas de fumaça branca. O barulho das tagarelices foi cedendo lugar a um silêncio angustiado. As árvores passavam velozes, enquanto o dia se expunha. Uma imensa nuvem de pó se levantava à nossa passagem e enchia nossos olhos e narizes. Nos entreolhávamos, sem sorrisos.
O pequeno veículo pertencia ao Seu Liveira, cidadão urubiciense, serrano da gema, fazendeiro daquelas bandas. Uma camioneta F-100 amarela, com os para-lamas pintados de azul. A carroçaria havia sido preparada, com uma cerca alta de ripas de madeira, já que o ambiente era reduzido e, ali, nos concentraríamos por muitas horas, serra abaixo.
Aos poucos tudo ao nosso redor foi sendo coberto por uma grossa camada de pó, nossas roupas ficando esbranquiçadas e nossas feições de textura cadavérica. Não havia muito que conversar. Espaço reduzido, vento gelado nas orelhas, curvas, curvas, curvas…
Subimos o morro do Quebra Dente em marcha lenta, aos solavancos, penetrando cada curva com cuidado. O fantástico panorama da Serra ia se desdobrando em mil cenários. Ora um rio, ora uma cachoeira, um perau. Meus olhos de criança jamais tinham pousado sobre tanta beleza, e sobre coisas tão estranhas. A paisagem se abria em cada rincão; em cada canto uma cena pitoresca. Não pensava em meus irmãos, em meus pais, em minha casa. Queria afundar no mundo. Sentia em minhas veias um sangue novo e em minha mente passavam muito rápido os pensamentos, as coisas se sucediam tão rapidamente, que mal podia acompanhá-las ou sequer entendê-las.
Já muitas voltas depois, estávamos diante do Morro Pelado, uma impressionante formação rochosa em esplêndida forma cônica, em plena Serra do Panelão. De lá, olhando-se para trás, avistava-se Urubici, pequenina e enfumaçada pela neblina. As roças, as casas, os morros ao redor. Tudo longe, tudo distante, a me dizer que nunca mais para lá eu voltaria. Por um momento caí em mim, meus olhos se encheram d’água. A manga do casaco de lã escondeu minhas lágrimas entre fibras e segredos. Disfarçando o rosto e olhando meio de lado, fui vendo, aos poucos minha cidadezinha se perder por entre os montes. Sumiu. Um vazio se apossou de minha alma de criança. E uma espécie de conformismo se alojou em meu espírito: vamos em frente! Não vou mais olhar para trás…
A paisagem se modificou rapidamente, à medida que fomos chegando mais para perto de Bom Retiro, Barracão, Ituporanga. De repente um susto! Uma forte pancada e um grande solavanco mexeu a todos do lugar. O carro subira num enorme monte de cascalho. Adernou perigosamente, voltou para trás e parou. Seu Liveira saiu, passou o braço sobre a fronte, sorriu confuso e desnorteado. A confissão fluiu-lhe da boca espontaneamente: – Estou aprendendo a dirigir… Alguns mais velhos entenderam o alcance da frase. A mim me pareceu estar tudo certo. Estávamos parados, o carro não tombara…
Todos descemos do veículo. Com algumas penosas manobras e acompanhado da torcida adolescente, que a esta altura se acendera em seu auge, excitados pela inusitada e inesperada situação. Já o dia amanhecera de vez e o sol começava a aquecer nossos corpos empoeirados.
Decretou-se uma pausa para um lanche. Sentei-me no barranco, abri a pequena matula de pano, onde estavam as talhadas de pão de milho, untadas carinhosamente com banha de porco e cobertas com açúcar. A imagem de minha mãe pairou por um instante à minha frente, e logo sumiu, atropelada pelo turbilhão de pensamentos que me tumultuavam a alma. Na trouxinha havia também um saco plástico com pedaços de galinha frita, envolvidos em saborosa farofa de mandioca. Livre das costumeiras pressões maternas à mesa, afundei os dentes nas gostosuras que minha mãe preparara. À farinha se misturava a poeira, e na poeira já se emplastrava a saudade.
Camioneta na estrada, todos a bordo, novamente barulhentos e distraídos, seguimos serra a baixo, rumo ao misterioso paradeiro para onde íamos. Duas coisas me chamavam muito a atenção: a terra se tornara vermelha, como eu nunca havia visto antes, e no alto de cada poste, ao longo da estrada, havia ninhos de joão-de-barro, o forneirinho. As casinhas redondas do passarinho, seu canto barulhento e ritmado soavam-me aos ouvidos como uma novidade extraordinária.
Chegamos à cidade de Rio do Sul, já no Alto Vale do Itajaí e meus olhos se extasiavam diante do tamanho dos rios. Imensas caudais, rolando serra a baixo. Dentre tantas coisas novas que eu via, uma delas não me sai da lembrança: o trem! A maria-fumaça. Enorme, escuro, lançando um imenso jorro de fumo negro para cima. Resfolegando em meio a um barulho ensurdecedor, entremeado pelo chiaço assustador do escape do vapor da fervente caldeira. Os trilhos de aço, os passageiros abanando ao longe, tirando os chapéus; tudo me fascinava e me enchia os olhos com coisas jamais vistas.
Beirávamos agora o Rio Itajaí-Açu, descendo sempre mais em direção ao litoral de Santa Catarina. O chinchorro modorrento nos arrastava por morros, ladeiras e serrinhas, ronceiro e, agora, mais prudente. O sol de janeiro já escaldava, e apesar do vento que soprava, o calor ficou intenso e agoniado. Tirei o casaco e comecei a entender que nas terras baixas, para onde íamos, o calor seria sufocante. E não estava errado.
Costeando o imenso rio, que de encachoeirado e rápido ia se tornando mais caudaloso e lento, passamos por Ibirama, Subida e Apiúna. Já aí, a paisagem era completamente diferente de tudo ao que eu estivera acostumado. Plantações de arroz, em meio a imensas áreas alagadas, me surpreendiam tanto, que mal podia falar. As enormes carroças tiradas por dois animais, as árvores, os pássaros… De repente, meu Deus, onde havia ficado tudo o quanto eu conhecia? Como podia existir um mundo tão diferente do meu? Onde foram parar as carucacas, os chuins, as tunas e as lechiguanas? Os riachos marulhosos e limpinhos onde estariam? Tudo cresceu tanto! Os horizontes se alargaram, os grandes montes de minha terra sumiram. Que faria eu sem o Avencal, sem o Morro Bicudo, sem as escarpas de Urubici? Bananais, canaviais, arrozais… Tanta fruta nova, tantos cheiros, abacaxis, ananás, goiabeiras, laranjais, bergamotas… Onde estavam meus pinheiros, as avencas, as margaridas do banhado, os xaxins e os marmeleiros?
Entre o choque e o encanto fomos chegando ao Médio Vale do Itajaí e, de repente, lá estava ela: Ascurra! Um sonho… Num primeiro momento o alarido foi geral, depois um longo silêncio. Meus amigos passavam pela mesma estupefação que eu. As casas eram diferentes, o clima, o sol, a terra vermelha.
A pequena cidade apareceu inteira. O imenso maciço de vetustos prédios que compunha o seminário ocupava quase que o cenário todo. Enorme, amarelo, misterioso, repousando à sombra de soberbo santuário. Ali seria nosso novo lar, sem pai, sem mãe, somente irmãos, um orfanato assustador.
Entramos na cidadezinha, circulamos pela frente do Colégio e mergulhamos por uma pequena avenida cercada de palmeiras. À nossa frente o prédio principal, com imponente e séria fachada. As portas enormes, as janelas imensas. Uma rápida virada à esquerda e mais outra à direita e penetramos por vielas rebordadas de jardins e sombreadas por frondosas árvores. Logo à frente a belíssima capela do internato e, passando a seu lado, chegamos deslumbrados ao pátio central, onde corria e se agitava uma centena de outros garotos como eu.
A camioneta parou, alguns dos curiosos internos rodearam o veículo, que parecia ter saído de uma cena de guerra, descemos e logo me bateu aos ouvidos o estranho sotaque italiano. Tomei minha pequena mala e o saco com as cobertas, engoli em seco o choque que me provocara a solenidade do ambiente e fui, acompanhando o grupo, em direção ao dormitório. Alguém nos indicou os lugares. Meus primos o Élvio e o Paulo ficaram em cantos opostos do imenso salão, onde se enfileiravam centenas de camas, entremeadas de armários baixos.
O colega do lado, percebendo meu embaraço, se dispôs a ajudar-me a arrumar a cama: um lençol por baixo, outro por cima, a colcha, o travesseiro, a coberta dobrada aos pés do leito e, sobre ela, as toalhas de banho e de rosto, feitas de pano de sacas de trigo, alvejadas à força de hipoclorito, mas ainda estampando a marca impressa do produto.
Era meio-dia. Descemos para o almoço e, ao pé da escada, me perdi no turbilhão formado por mais de trezentos internos, no vozerio, na algazarra. Soou o sino, todos emudeceram instantaneamente. Olhei confuso tudo aquilo, senti meu coração disparar e não segurei minhas primeiras lágrimas…